@PHDTHESIS{ 2025:566182793, title = {AMORES QUE MATAM, AMORES QUE FEREM, AMORES QUE DOEM, AMORES QUE AMARGAM: “VIRE A PÁGINA” COMO DISCURSO DE RESISTÊNCIA}, year = {2025}, url = "http://tede.unicentro.br:8080/jspui/handle/jspui/2468", abstract = "A violência doméstica é um problema social e político que assola o país desde tempos imemoriais e que acontece, na grande maioria das vezes, dentro de casa, lugar que deveria ser sinônimo de aconchego e proteção, porém, por estar longe dos olhares vigilantes da rua, transforma-se em um núcleo desse tipo de ocorrência. Diante de números cada vez mais alarmantes, a Prefeitura de Curitiba lançou, em 2019, a campanha intitulada “Vire a Página”, resultado de políticas públicas implementadas para mulheres. Dentre os diversos materiais produzidos, nos chamou atenção um livro, que traz o mesmo nome da campanha e que circulou no formato impresso e digital. Na versão digital constam 19 cartas e na versão impressa, três, todas escritas a próprio punho por mulheres vítimas de violência doméstica. Essas cartas circularam no verso dos Boletins de Ocorrência, registrados em delegacias de polícia. Pelo viés do discurso, compreendemos essas cartas como testemunhos, que funcionam como “um gesto de lembrar para não esquecer” (Mariani, 2021). Como corpus deste trabalho, recortamos as cartas que circularam na versão impressa do livro e que discursivizam a violência doméstica contra a qual mulheres “ousaram se revoltar” (Pêcheux, 2014). A base teórica que dá sustentação ao trabalho é a Análise de Discurso fundada por Michel Pêcheux, na França, e reterritorializada por Eni Orlandi, no Brasil, e pelos demais pesquisadores que têm como objeto de estudo os processos discursivos. Nosso principal objetivo é investigar como esse sujeito/mulher agredida se significa nas cartas/testemunhos, isto é, como ela se diz, diz o outro e também a violência sofrida nessas cartas. Mais especificamente pretendemos: a) com preender os discursos e percursos da violência doméstica contra a mulher, no Brasil; b) ave riguar como a violência doméstica é discursivizada nos Boletins de Ocorrência, documento oficial que permite a adoção de medidas protetivas de urgência (MPU) previstas na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006); c) identificar os principais efeitos de sentido produzidos acerca da violência doméstica nos discursos que circularam no livro “Vire a página”; d) elencar a importância das políticas públicas no enfrentamento à violência doméstica, no Brasil. A tese que nos move é a de que os discursos das mulheres vítimas de violência doméstica, registra dos nos Boletins de Ocorrência nas delegacias de polícia e materializados por meio de cartas, por nós compreendidas como testemunhos, revelam não apenas a violência sofrida, mas tam bém a maneira como essas mulheres se significam e significam o outro enquanto sujeitos, tensionando as relações de força, as representações sociais e as políticas públicas de enfren tamento desse grave problema social. Nos testemunhos ressoam efeitos de sentido de opres são e de silenciamento histórico, uma vez que ao denunciar o agressor, o discurso dessas mulheres produzem sentidos que podem tanto reforçar quanto ressignificar as normativas sociais e institucionais sobre a violência doméstica no Brasil. Os resultados deste estudo apontam que a violência doméstica contra a mulher é discursivizada de maneira diferenciada nos Boletins de Ocorrência (BOs) e nos testemunhos materializados nas cartas. Nos BOs, irrompe uma padronização discursiva que tende a homogeneizar os discursos, conferindo-lhes um caráter técnico e objetivo, em função das exigências institucionais. Essa uniformização, no entanto, contrasta com a complexidade e a subjetividade das histórias de cada mulher em situação de violência, que emergem de forma mais singular nas cartas. A análise dos discursos do livro “Vire a Página” revelou que os testemunhos funcionam como um espaço de resistência, permitindo que essas mulheres sejam ouvidas e suas histórias ganhem visibilidade. A escrita, nessas condições de produção, não apenas registra a dor e o sofrimento, mas também funciona como um gesto político de enfrentamento à violência e ao silenciamento imposto historicamente às mulheres. No que se refere às políticas públicas, constatamos que, apesar dos avanços, ainda há desafios estruturais que dificultam a efetividade das medidas de proteção. A subnotificação dos casos, o medo de denunciar e a persistência de barreiras culturais e institucionais demonstram que a violência doméstica continua sendo um fenômeno numa sociedade marcada por relações de poder historicamente construídas. Por fim, as análises demonstram que a luta contra a violência doméstica exige uma abordagem integral, que vá além da punição dos agressores e invista na prevenção, na assistência às vítimas e na transformação das estruturas sociais. O estudo reforça a necessidade de ampliação das políticas públicas e da escuta ativa das mulheres, permitindo que seus discursos contribuam para dar visibilidade aos novos lugares da mulher na sociedade contemporânea, assim como o enfrentamento da violência por elas sofrida e os novos sentidos sobre o ser mulher e o enfrentamento da violência.", publisher = {Universidade Estadual do Centro-Oeste}, scholl = {Programa de Pós-Graduação em Letras (Doutorado)}, note = {Unicentro::Departamento de Letras} }